Você tem tempo?

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Tempo é coisa que ninguém tem, ou, pelo menos, diz que não tem. Estamos habituados a pensar no tempo como algo que flui do passado para o presente. É preciso aproveitar o tempo, diz-se. As expressões relativas ao tempo são comuns, desde “tempo é dinheiro” até “matar o tempo”. O fato é que personificamos o tempo e o transformamos em algo quase tangível, como um personagem fugidio por quem ansiamos em algumas ocasiões, e que nos aborrece em outras.

Com tempo ou sem tempo, para quem lida com metrologia, a ciência das medições, o importante é medir o tempo. Você já pensou o que se está medindo quando se mede tempo?

 Pois bem, o tempo é uma grandeza física, isto é, uma propriedade física dos corpos. O comprimento, o volume, a massa, a temperatura de um corpo são grandezas físicas. Em sendo assim, que propriedade será que estamos medindo quando nos referimos ao tempo?

A coisa parece simples, mas não é! Isso porque a intuição que temos do tempo não é da mesma natureza daquela relativa às outras grandezas físicas mais “sensoriais”. Peso é peso, é fácil atribuí-lo a um corpo qualquer. Temperatura, tamanho, etc. são também bastante palpáveis. Mas, e o tempo? Você perguntaria qual é o tempo da cadeira onde você está sentado? Você mediria o tempo da sua caneta esferográfica ou da água que você pretende beber?
Se essas perguntas parecem deslocadas, é porque nos referimos ao tempo como uma medida de duração. Na verdade, quando medimos tempo estamos comparando a duração de um processo, que é necessariamente dinâmico, com outro processo qualquer, como, por exemplo, o movimento rítmico dos ponteiros de um relógio ou o escoar da areia em uma ampulheta… Tempo, nesse sentido, é uma representação, uma idéia que nos facilita comparar diferentes durações em processos que consideramos conhecidos, ou, pelo menos, identificáveis. Assim, quanto tempo terá a sua caneta esferográfica?  Bom, isso depende… Talvez ela tenha sido fabricada há um ano, e então você medirá o período de existência da caneta. Ou talvez você queira medir a sua vida útil… Seja como for, o que importa é perceber que quando medimos tempo estamos comparando durações, processos, e isto porque tudo no universo encontra-se em contínua mudança. Se pudéssemos imaginar uma coisa absolutamente estática, ela seria atemporal. Mas, então, será o tempo uma medida de movimento?

De certa maneira, sim! E nem precisamos recorrer à teoria da relatividade ou à mecânica quântica para perceber isso. Veja só: O Sistema Internacional de Unidades estabelece o segundo como unidade de medir tempo. O segundo é definido como a “duração de 9 192 631 770 períodos da radiação correspondente à transição entre os dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133”. Complicado? Também acho! Mas observe que se está falando de um processo subatômico (que ocorre interior do átomo), e se esta falando de transição entre dois níveis (vale dizer, movimento). Ou seja, o segundo é definido pela duração de um processo, exatamente como ocorre em qualquer relógio ou ampulheta, baseado no movimento.

Talvez o principal processo por nós utilizado para avaliarmos a duração das coisas seja a nossa vida. Em um organismo vivo complexo, como o ser humano, desenrolam-se muitos processos. Alguns deles são marcados por compassos rítmicos, como o batimento cardíaco e a respiração. Nossa percepção de duração está, em boa medida, baseada nesses ritmos biológicos. Por outro lado, o mundo que nos cerca é, também ele, dominado por processos rítmicos como as estações do ano, a sucessão dos dias e noites, etc. Ou seja, temos uma percepção subjetiva de tempo, que naturalmente não é a mesma para todas as pessoas. Daí a necessidade de se estabelecer um padrão, um ritmo, um processo que nos dê uma periodicidade representativa da unidade de tempo de maneira objetiva. E assim nasceu a moderna concepção do segundo, seus múltiplos e submúltiplos. Entretanto, essa concepção é apenas uma abstração, um método, uma maneira de fixar objetivamente algo tão inapreensível como a duração, já que, concreta e objetivamente, o tempo não existe. Por isso, você não deve se preocupar tanto com a falta de tempo. Afinal, você está cercado por inúmeras durações e tempo algum!

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