Quando o almanaque vinha com cordinha

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Quando nós aqui do Almanaque nos deparamos com esse ensaio de  Margareth Brandini no site da Unicamp, ficamos encantados com a história do almanaque no Brasil e a sua importância cultural, principalmente para as pessoas das áreas rurais que pouco tinham acesso a educação e alfabetização, confira:

Para escrever parte dessa história foi preciso rastrear o passado atrás de velhos almanaques, recriar maneiras de ler e gestos de leitura hoje já esquecidos, mas, principalmente, compreendê-los em seus significados e valores. E depois, ao entendê-los no presente, confrontá-los com a sua circulação e permanência, com as suas representações de cada época.

Hoje as pessoas lêem ou mesmo conhecem almanaques através do Almanaque Abril ou relacionando-os a simples conceitos de utilidade/inutilidade.

O almanaque trata de divertimentos, informações, atualidades, saber, porém são os seus significados, recriados na e pelas leituras, de seus leitores, que configuram os espaços/os tempos dessas épocas. O almanaque tem se relacionado, na sua história, à criação de uma mitologia e de um simbolismo que não tem mudado muito no curso dos séculos, se revermos as histórias de alguns almanaques.

Por isso, a definição de almanaque de Bollème (1969), ultrapassa alguns conceitos de material impresso: “Para definir o almanaque, salientamos o seguinte: ele não é um manual, ele não é assimilável de forma muito diferente do que é um romance, ele diverte sem se prender à pura fabulação, ele ensina sem ser dogmático, ele não é, de modo algum, artigo de fé, ele obedece a uma grande lei que é sem dúvida aquela de toda leitura popular, é prazeroso e é útil”.

 A evolução do almanaque, era mostrada através de piadas. Nelas se observa a presença de carros, palavras francesas (1941), valorização do dinheiro (1951), referências à arte moderna (1954), componentes culturais de cada época.

Porém, talvez o mais importante para a compreensão das modificações de leitura que começava a sofrer o almanaque na década de 60, é o caso do Cordãozinho, contado pelo gerente de produção de um Alamanque em meados da década de 50.

” Desde 1920 até 1954, os almanaques vinham com um cordão que servia para pendurá-lo na parede. Isso ficava muito caro. Não havia máquina para fazer o serviço, e os cordões eram amarrados um a um. Dava um trabalho tremendo, além do preço sair muito alto. A edição de 54 foi a última que veio com cordão. Recebemos diversas cartas reclamando contra essa alteração. Mas, não havia jeito.”

Seu Vicente, nascido em 1916, em Agudos, Estado de São Paulo, contou a sua história de leitura do almanaque numa dessas cartas:

A primeira vez que vi um armanaque foi no orfanato. Acho que era 1928. Eles mostrava prás criança, prá num andá discarça.

O que era de mais interesse era a história do Jeca Tatu. A professora aproveitava…

Aí eu casei e fui pro sítio prantá. Fui embora. Casei.

E o jeito era o armanaque. O único lugar prá saber quando e o que prantá

Nem é só isso. E nome pros filho? Tirado do Livro Sagrado e dos armanaque.

As criança andava tudo carçada. Aprendi lá. Prá não dá bicho.

Lá no sítio, nóis punha uma cordinha e o armanaque ficava pindurado no guarda-comida. Preso. Fáci de pegá. Quarqué um que chegava prá perguntá quarqué coisa, tava aí. Só olhá!

As vizinha, quando queria receita de coisa de comê, vinha. Olhava, escutava, ia e fazia. Vinha sempre receita da coisa de cozinhá.

Sinhá, o armanaque era que nem a gente tê um médico em casa. Sabe como é. Os meninos sempre tem dor de barriga, as gripe, chiadeira, aí é só ir e olhá o que é bom. É dá e pronto.

Altera-se uma sociedade, altera-se o objeto almanaque, alteram-se práticas de leitura e neste espaço, de um país que implementa sua indústria e inscreve-se no progresso, o barbante perde significado.

Neste momento, aos calendários pregados balouçantes e manuseados sucedem-se quadros nas residências e o almanaque ganha outros lugares que não à vista dos olhos, em espaços predominantemente rurais onde as práticas de leitura se aproximam de um acontecimento festivo e coletivo.

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