O Relógio de Dez Mil Anos

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Protótipo do Relógio de dez mil anos

Já falamos aqui no blog sobre o conceito de tempo (ver: Você tem tempo?). O Tempo é sempre um tema fascinante e não está limitado àquilo que pensam os físicos. Filósofos, poetas, artistas, historiadores, comunicadores, todo mundo se interessa pelo tempo e tem concepções próprias a seu respeito. Para o pessoal que lida com medições, os metrologistas, interessa que o tempo seja uma grandeza física e, portanto, seja mensurável. Por isso estamos entusiasmados com o Relógio de Dez Mil Anos, chamado Long Now Clock, um projeto interessantíssimo de medição de tempo que vai muito além da medição.

Para explicar o que é o Long Now Clock é preciso falar um pouco sobre a Long Now Foundation (site em inglês) e sobre as idéias que dão sustentação a esse e a outros projetos pouco ortodoxos. Essa fundação americana propõe nada menos que uma revolução cultural de caráter planetário cuja idéia fundamental é uma nova percepção do tempo. Para a Long Now o modo como vivenciamos o tempo e como vivemos as nossas vidas está equivocado. As pessoas, pelo menos nas sociedades ocidentais ditas “desenvolvidas”, adotaram um modelo de vida baseado no conceito do rápido e descartável, enquanto o ideal seria que vivêssemos devagar e melhor.

A idéia é simples, mas parece ter um alcance considerável. Fazer as coisas cada vez mais depressa, viajar cada vez mais velozmente, comer fastfood, descartar copos, pratos, computadores, carros, relacionamentos, pessoas, enfim, viver “o momento” é conseqüência de um modelo construído a partir da revolução industrial e da sociedade de consumo, onde a produção de bens deve crescer exponencialmente, onde esses bens precisam ser pouco duráveis para serem rapidamente repostos e rapidamente consumidos. As conseqüências estão à vista: Comprometimento da biosfera do planeta, baixa qualidade de vida, ansiedade coletiva e desrespeito pelo conhecimento e pela cultura. A Long Now pretende inverter esse modelo ao substituir a pressa pelo vagar, o descartável pelo duradouro, a quantidade pela qualidade. É quase como substituir um modelo baseado na ação imediata por outro mais voltado à contemplação, valendo-se justamente de todo o conhecimento tecnológico que caracteriza o nosso tempo.

Bem, viagens filosóficas à parte, o fato é que um dos projetos da Long Now é construir o relógio de dez mil anos. Já deu para perceber que o tal relógio tem uma função mais iconográfica que metrológica. Um relógio projetado para funcionar dez mil anos é um símbolo poderoso de que precisamos nos preocupar com a duração das coisas, das idéias, da nossa própria civilização. Por isso, o relógio foi concebido para funcionar quase sem interferência humana e com energia de fontes renováveis (solar, por exemplo). Será construído de materiais duráveis, porém de baixo valor, de modo que futuras civilizações não se sintam tentadas a desmontá-lo para roubar as partes valiosas, como já aconteceu com as pirâmides e muitos marcos culturais do passado. Além disso, sua construção será inteiramente mecânica, inclusive os dispositivos de computação, de modo a permitir que seja reparado (e o seu funcionamento compreendido) mesmo que parte do conhecimento tecnológico de hoje esteja perdido no futuro! Mais que um medidor de tempo, o relógio de dez mil anos é uma aposta de longo prazo na razão humana e um monumento à esperança de que, num futuro distante, ainda estejamos aqui para apreciá-lo.

O protótipo do relógio de dez mil anos foi construído em 01999 e está no Museu de Ciências de Londres.

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