Medições Fabulosas – O califa sedento.

by

Sede1

Era uma vez, na antiga cidade de Bagdá, um mercador cuja família fizera fortuna vendendo água. Ibn Yusuf descendia de um antigo clã, que mantinha sob seu domínio um poço secreto cuja água era de pureza inigualável.

Certo dia Ibn Yusuf foi chamado ao palácio do Portão Dourado para resolver uma importante questão. O Califa estava sedento! O mercador foi conduzido à sala de audiências, e, após as cerimônias de praxe, teve permissão para falar:

– Oh! Supremo Líder dos Crentes: Será verdade aquilo que ouvi? Será possível que o poderoso Califa de Bagdá não tenha sequer um mudd de água pura?

– Assim é, mercador. Incontáveis são os meus tesouros e poderosos são os meus exércitos, mas Alá é maior! Padeço, entretanto, de sede constante, pois salobra é a água que me oferecem e turvo é o seu aspecto. Sei da fama do teu poço. Deverás, portanto, trazer a este palácio, todos os dias, cinquenta kayls da tua afamada água. Nem penses em suprimir uma gota sequer. Meu vizir estará encarregado de conferi-la e pagará regiamente por ela.

Desconcertado, Ibn Yusuf comprometeu-se a fazer o que lhe ordenara o Califa. Ficaria ainda mais rico, porém algo o preocupava. Sabia que o kayl não representava uma medida única e que variava de um lugar para outro. Por exemplo, será que o Califa se referira ao kayl  equivalente a 5 vezes o pequeno mudd Al-Nabi, definido pelo Profeta? Ou ele considerava o mudd kabir, equivalente a 4 mudds pequenos? E como saber se o kayl do vizir tinha a mesma capacidade que o seu? O único jeito era compará-los, mas para isso teria que convencer o vizir da necessidade de entrarem em acordo com relação a uma medida de volume que fosse aceita como padrão por ambas as partes.

Felizmente o vizir era um homem sábio e honesto, temente a Alá e fiel à tradição. Com a ajuda do al-muhtasib do palácio, em primeiro lugar definiu o kayl como valendo cinco vezes o mudd Al-Nabi. Depois, pegou o valioso mudd do palácio, feito em ouro, e com ele conferiu o volume do kayl do palácio, feito em prata. Em seguida, usando esta última medida, conferiu os 50 kayls que seriam usados pelo mercador. Muitos tiveram que ser ajustados e outros foram substituídos. Por fim, colocou a marca do Califa em todos os kayls que conferira e considerara corretos.

Sede

Na primeira entrega Ibn Yusuf estava confiante. Ele acompanhara pessoalmente o enchimento dos kayls, o que fora feito cuidadosamente pelos seus empregados núbios. Selara todos os vasos de modo a não perderem uma só gota de água. Finalmente conduziu os seus camelos à ala do palácio destinada ao recebimento de mercadorias. Lá estava o vizir, que viera em pessoa conferir as quantidades.

O primeiro kayl foi cuidadosamente aberto e a sua água foi vertida no kayl do palácio. O vizir observou se o líquido atingira a marca interna que definia o equivalente a cinco mudds.

– Está faltando – ele observou decepcionado, dirigindo-se a Ibn Yusuf. – Acaso te fará falta o meio cálice que deixaste de acrescentar neste vaso? Esqueceste o que te disse o Califa?

– Não é possível – retrucou o mercador – Conferi pessoalmente toda a operação. Vamos verificar os demais vasos.

Para alívio de Ibn Yusuf, todos os outros vasos estavam com a quantidade de água correta. Mas então, como explicar que o primeiro kayl estivesse com menos água? Intrigado, o vizir concordou que, talvez, houvesse um erro na conferencia do volume daquele kayl e o substituiu por outro. Não pagou, entretanto, pelo lote recebido, pois estava desconfiado do mercador.

O processo se repetiu no dia seguinte. Como da vez anterior, no primeiro kayl faltava meio cálice de água, enquanto todos os demais estavam com a quantidade correta.

O vizir ficou indignado e estava a ponto de punir exemplarmente o mercador, quando o al-muhtasib interferiu. Com o devido respeito observou que quando se conferia o primeiro vaso trazido pelo mercador, o kayl do palácio se encontrava internamente seco. Nas conferências seguintes, entretanto, o kail se encontrava molhado e, portanto, já continha o equivalente ao meio cálice de água. O problema estava no método de medição e não na desonestidade do mercador.

O vizir ficou satisfeito com a explicação e pagou regiamente pela água recebida. Ibn Yusuf ficou profundamente grato ao al-muhtasib, o qual, no entanto, recusou a recompensa que lhe ofereceu o mercador.

Moral da história: Quando for negociar com o Califa, leve um al-muhtasib da sua confiança.

Glossário:

Mudd Al-Nabi; mudd do Profeta Maomé ou mudd legal: Medida árabe de volume usada no período medieval, equivalente a 0,695 litros, ou seja, pouco mais que o volume de uma garrafa de cerveja.

Mudd kabir ou mudd grande: Equivalia a 4 mudds pequenos, ou cerca de 2,78 litros.

Kayl: Medida árabe de volume usada no período medieval, equivalente a 5 mudds ou 3,475 litros.

Al-muhtasib: Almotacé, funcionário encarregado de fiscalizar os pesos e as medidas na idade média. Metrologista.

Anúncios

Tags: , , ,

2 Respostas to “Medições Fabulosas – O califa sedento.”

  1. Ana Maria Jacobitti Says:

    Adorei saber que sou uma AL-muhtasib.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: