Ano novo, ou a fábula do panetone eterno…

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panetone

– … Como assim, tempo cíclico… De que tempo você está falando?

– De todos, ora!

– Você está enganado. O tempo é contínuo, ele flui como um rio que nasce no passado e corre para o futuro, passando pelo presente…

– Muito poética essa imagem do rio, mas não acho que seja assim. Para mim o tempo é apenas uma maneira das pessoas medirem uma transformação, um processo!

– Medir um processo, é? Sei…

– Sim, uma mudança de estado, quando uma coisa vai se transformando em outra. As coisas parecem ter começo e fim apenas porque medimos alguma parte de um processo que, na verdade, é contínuo. Se as coisas fossem estáticas, imutáveis, o tempo não existiria.

– Que nada! A maioria das coisas começa e acaba! E pronto!

– Muito bem! Então me dê um exemplo de uma coisa que começa e acaba.

– Fácil. Um panetone!

– Um panetone? Porque um panetone?

– Sei lá, me deu vontade. É época de panetone!

– Então vejamos : O padeiro faz a massa, põe no forno e, depois de um tempo, o panetone fica pronto. Aí, alguém o compra e o come. O que aconteceu? O panetone acabou-se, mas o processo de fazê-lo se repete indefinidamente.

– É, mas teve começo e fim, não teve?

– Aquele panetone foi apenas um pequeno evento no infindável processo de produzir e comer panetones…  É como eu disse: Se você olha o processo “no meio” parece que aquela parte teve começo e fim. Porém, como vimos, os processos são circulares e, portanto, infinitos.

– Ai, ai, ai… Lá vem você com essa mania de infinitude.

– Vou dar outro exemplo. As estações do ano existem porque a Terra gira em torno do Sol, certo?

– Certo! E também porque o eixo da Terra é inclinado.

– Exatamente. Ano após ano as estações se repetem…

– Mas não é todo mundo que reconhece as estações como sendo primavera, verão, outono, inverno. Aqui no Brasil, por exemplo, só com muita imaginação a gente percebe quatro estações…

– Sim, mas conseguimos distinguir a estação fria e a quente. Ou então a estação chuvosa e a estação seca. A mudança de clima, de uma estação para outra, permitiu às antigas civilizações perceberem que o tempo muda, mas essa mudança acaba se repetindo a cada ano, ciclicamente. Ou seja, tanto o tempo climático quanto o tempo cronológico são cíclicos. Não é à toa que, em português, a palavra “tempo” faz referência às duas coisas.

– Ok! Concordo que a repetição das estações permite medir o tempo em anos. Aliás, basta observar que os dias, mais curtos no inverno, vão ficando mais longos no verão.  Mas e o tempo histórico? Passado é passado, não volta nunca mais…

– Será que não?  O que você me diz do Natal? Para os cristãos o Natal não é apenas o aniversário de Cristo.  Eles creem que Cristo nasce, novamente, a cada ano. Os antropólogos chamam a isso de “tempo mítico”.

– Sei não… Só sei que um dia o nosso amigo Sol vai deixar de ser a pacata estrela amarela que é hoje, vai  se tornar uma gigante vermelha e vai engolir o planeta. Aí, adeus tempo climático, tempo cíclico, tempo mítico… Adeus  eternidade! Como é que você responde a isso?

– Eu bem que poderia falar sobre o infinito processo que cria e destrói  universos, falar do “eterno retorno”…  Mas isso é apenas especulação filosófica.  Então, respondo com uma imagem poética inspirada em Vinicius de Morais: Assim como o amor, todo processo é infinito enquanto dura…

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