Medições Fabulosas: A Lebre e o Jabuti*

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lebrejabuti

*Na fábula original, se não me engano, eram  lebre e tartaruga, e há quem prefira coelho e tartaruga. Mas assim como as lebres não são coelhos, as tartarugas não são jabutis! Tartarugas são animais exclusivamente aquáticos, enquanto os jabutis só vivem em terra (e os cágados frequentam os dois ambientes, mas não entram nessa história). Então, vamos à fábula!

Era uma vez um jovem jabuti que tomava sol à margem de uma trilha aberta no cerrado, quando viu passar por ele o vulto de uma lebre!

O jabuti levantou a cabeça, mas quando finalmente disse “olá!” a lebre já se distanciara uns cem metros. Mesmo assim ela ouviu a saudação com suas enormes orelhas, e antes que o jabuti tivesse tempo de voltar a cabeça à posição original, lá estava a lebre à sua frente:

– Oh pá! Não o tinha visto, Jabuti Piranga! Estavas tão imóvel que pensei fosses uma pedra – zombou a lebre.

– Como vai, Lebre Ibérica? Que tal a vida aqui na colônia? – perguntou o jabuti, referindo-se ao fato de que a lebre era imigrante portuguesa. –  Também mal a vi passar, tão apressada você ia. Por sorte tenho bom golpe de vista.

– Ora pois! Então és rápido ao menos com os olhos!

– Ah, sim! Sou muito rápido! Tanto é que você não me viu, enquanto eu a vi muito bem! Se eu fosse uma cobra você já estaria no papo!

– De cobra só tens a cara… Pois também eu te vi, mas não quis parar. – dissimulou a lebre –  Não sou como tu, que vives oitenta anos e tens tempo a perder. Lebres vivem no máximo uns oito anos, e eu já passei dos quatro. Mas saiba que não é fácil me pegar. Aqui no cerrado não há ninguém mais rápida que eu, nem mesmo o meu velho inimigo Lobo Guará

– O Lobo Guará não me incomoda. Na certa soube da minha rapidez e desistiu de tentar me pegar! – retrucou o jabuti ironizando a própria lentidão. A lebre, entretanto, levou o comentário ao pé da letra.

– Não será por conta da armadura que levas?

– Não creio – respondeu o Jabuti, que já estava achando a lebre meio antipática – O compadre Tatu-Bola também tem armadura e morre de medo do Guará. Fica todo enrolado quando vê um.

– Se tu dizes… Nesse caso, se és mesmo rápido, que tal apostarmos uma corrida? – perguntou a Lebre, maliciosamente – Achas que ganharias?

– Claro que sim! Historicamente nós, os quelônios, nunca perdemos uma corrida, a começar pelo famoso paradoxo de Zenão, no qual Aquiles, o mais rápido dos gregos, não conseguiu alcançar uma tartaruga que saiu um metro na sua frente. E temos Esopo, o fabulista grego que contou como a tartaruga venceu o coelho. E também temos La Fontaine

–  Belo corredor esse tal Aquiles… – interrompeu a lebre –  Dar a uma tartaruga apenas um metro de vantagem. Pois se quiseres, dou-te uma vantagem de quinhentos metros em um quilometro, e ainda paro em casa a dar o almoço aos miúdos.

– Aceito o desafio! – exclamou o jabuti –  Mas antes me diga uma coisa: Numa corrida, o que é mais importante, a distância ou o tempo?

– Ora, ambos têm a mesma importância, pois aqui se trata de velocidade. Como talvez saibas, para conhecer a velocidade de uma lebre (seria impróprio falar em velocidade de um jabuti) divide-se a distância por ela percorrida, pelo tempo gasto para percorrê-la.

– É verdade! Velocidade é distância dividida por tempo! Então, abro mão da vantagem que você pretende me dar em troca de escolher as regras da corrida.

– Uma corrida é sempre uma corrida – respondeu soberbamente a lebre. – Escolhe as regras que quiseres!

– Bom! Como a distância e o tempo são igualmente importantes para a velocidade, em vez de fixarmos uma distância a ser percorrida, vamos fixar um tempo.

– Não sei se compreendo…

– Eu explico: Vamos correr durante determinado tempo, e ao fim dele quem tiver chegado mais longe vence. Naturalmente, quem desistir antes do tempo perderá a corrida. Sairemos daqui em direção ao sul, sempre em linha reta, até que o tempo se complete. Concorda?

–  É uma maneira pouco comum de competir, mas concordo – respondeu a lebre –  Para mim tanto se me dá. E durante quanto tempo iremos correr? Um minuto? Cinco minutos?

– Cinco anos…

Moral da história: Em se tratando de velocidade, melhor do que ter pés ligeiros é ter raciocínio rápido.

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