Archive for the ‘Medidas antigas’ Category

Medições Fabulosas – O califa sedento.

27 de novembro de 2013

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Era uma vez, na antiga cidade de Bagdá, um mercador cuja família fizera fortuna vendendo água. Ibn Yusuf descendia de um antigo clã, que mantinha sob seu domínio um poço secreto cuja água era de pureza inigualável.

Certo dia Ibn Yusuf foi chamado ao palácio do Portão Dourado para resolver uma importante questão. O Califa estava sedento! O mercador foi conduzido à sala de audiências, e, após as cerimônias de praxe, teve permissão para falar:

– Oh! Supremo Líder dos Crentes: Será verdade aquilo que ouvi? Será possível que o poderoso Califa de Bagdá não tenha sequer um mudd de água pura?

– Assim é, mercador. Incontáveis são os meus tesouros e poderosos são os meus exércitos, mas Alá é maior! Padeço, entretanto, de sede constante, pois salobra é a água que me oferecem e turvo é o seu aspecto. Sei da fama do teu poço. Deverás, portanto, trazer a este palácio, todos os dias, cinquenta kayls da tua afamada água. Nem penses em suprimir uma gota sequer. Meu vizir estará encarregado de conferi-la e pagará regiamente por ela.

Desconcertado, Ibn Yusuf comprometeu-se a fazer o que lhe ordenara o Califa. Ficaria ainda mais rico, porém algo o preocupava. Sabia que o kayl não representava uma medida única e que variava de um lugar para outro. Por exemplo, será que o Califa se referira ao kayl  equivalente a 5 vezes o pequeno mudd Al-Nabi, definido pelo Profeta? Ou ele considerava o mudd kabir, equivalente a 4 mudds pequenos? E como saber se o kayl do vizir tinha a mesma capacidade que o seu? O único jeito era compará-los, mas para isso teria que convencer o vizir da necessidade de entrarem em acordo com relação a uma medida de volume que fosse aceita como padrão por ambas as partes.

Felizmente o vizir era um homem sábio e honesto, temente a Alá e fiel à tradição. Com a ajuda do al-muhtasib do palácio, em primeiro lugar definiu o kayl como valendo cinco vezes o mudd Al-Nabi. Depois, pegou o valioso mudd do palácio, feito em ouro, e com ele conferiu o volume do kayl do palácio, feito em prata. Em seguida, usando esta última medida, conferiu os 50 kayls que seriam usados pelo mercador. Muitos tiveram que ser ajustados e outros foram substituídos. Por fim, colocou a marca do Califa em todos os kayls que conferira e considerara corretos.

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Na primeira entrega Ibn Yusuf estava confiante. Ele acompanhara pessoalmente o enchimento dos kayls, o que fora feito cuidadosamente pelos seus empregados núbios. Selara todos os vasos de modo a não perderem uma só gota de água. Finalmente conduziu os seus camelos à ala do palácio destinada ao recebimento de mercadorias. Lá estava o vizir, que viera em pessoa conferir as quantidades.

O primeiro kayl foi cuidadosamente aberto e a sua água foi vertida no kayl do palácio. O vizir observou se o líquido atingira a marca interna que definia o equivalente a cinco mudds.

– Está faltando – ele observou decepcionado, dirigindo-se a Ibn Yusuf. – Acaso te fará falta o meio cálice que deixaste de acrescentar neste vaso? Esqueceste o que te disse o Califa?

– Não é possível – retrucou o mercador – Conferi pessoalmente toda a operação. Vamos verificar os demais vasos.

Para alívio de Ibn Yusuf, todos os outros vasos estavam com a quantidade de água correta. Mas então, como explicar que o primeiro kayl estivesse com menos água? Intrigado, o vizir concordou que, talvez, houvesse um erro na conferencia do volume daquele kayl e o substituiu por outro. Não pagou, entretanto, pelo lote recebido, pois estava desconfiado do mercador.

O processo se repetiu no dia seguinte. Como da vez anterior, no primeiro kayl faltava meio cálice de água, enquanto todos os demais estavam com a quantidade correta.

O vizir ficou indignado e estava a ponto de punir exemplarmente o mercador, quando o al-muhtasib interferiu. Com o devido respeito observou que quando se conferia o primeiro vaso trazido pelo mercador, o kayl do palácio se encontrava internamente seco. Nas conferências seguintes, entretanto, o kail se encontrava molhado e, portanto, já continha o equivalente ao meio cálice de água. O problema estava no método de medição e não na desonestidade do mercador.

O vizir ficou satisfeito com a explicação e pagou regiamente pela água recebida. Ibn Yusuf ficou profundamente grato ao al-muhtasib, o qual, no entanto, recusou a recompensa que lhe ofereceu o mercador.

Moral da história: Quando for negociar com o Califa, leve um al-muhtasib da sua confiança.

Glossário:

Mudd Al-Nabi; mudd do Profeta Maomé ou mudd legal: Medida árabe de volume usada no período medieval, equivalente a 0,695 litros, ou seja, pouco mais que o volume de uma garrafa de cerveja.

Mudd kabir ou mudd grande: Equivalia a 4 mudds pequenos, ou cerca de 2,78 litros.

Kayl: Medida árabe de volume usada no período medieval, equivalente a 5 mudds ou 3,475 litros.

Al-muhtasib: Almotacé, funcionário encarregado de fiscalizar os pesos e as medidas na idade média. Metrologista.

Caminhando e contando

28 de setembro de 2010

Muitas das antigas maneiras de medir ainda persistem entre nós, sobretudo aquelas que se baseiam em partes do nosso corpo. O passo é uma delas. Passo é uma antiga medida romana, abolida há muito tempo, que equivalia a 5 pés (mais ou menos 1,5m). Hoje em dia, só nos lembramos do passo como unidade de medir quando vemos, nos filmes de piratas, o capitão contar passos para encontrar o seu tesouro enterrado. (more…)

Por que os sumérios contavam com base no doze?

26 de agosto de 2010

Escrita cuneiforme desenvolvidada pelos sumérios gravada numa escultura do século XXII a.C. (, Paris)

Medir é definir, numericamente, uma quantidade. Desde que tenhamos a unidade de medir definida, basta contar quantas dessas unidades são necessárias para medir o que desejamos. Por exemplo, podemos usar o metro para medir o comprimento uma peça de tecido. Digamos que, após comparar o metro com a peça, descobrimos que ela tem 8,5 metros, o que significa que contamos o metro oito vezes e meia. Portanto, o sistema de contagem que usamos é muito importante para determinar as medições.

 

Hoje usamos o sistema de contagem decimal, e o próprio Sistema Internacional de Unidades tem base decimal. Mas nem sempre foi assim, e ainda hoje existem grandezas que são contadas em base duodecimal (base 12). A medição de tempo é um bom exemplo.  O dia tem vinte e quatro horas, e cada hora tem 60 minutos ou 3600 segundos. Não é difícil perceber que a base de contagem é o doze e não o dez. Mas porque será que é assim?

 

Tudo indica que o sistema duodecimal começou lá na antiguidade, com os sumérios. Se os sumérios tinham dez dedos como todo mundo, porque não contavam as coisas com base no número dez, como fazemos hoje? É que eles tinham um jeito peculiar de contar. Quando contavam, eles moviam o polegar da mão direita sobre as falanges dos outros quatro dedos. Cada dedo tem três falanges, então era possível contar até doze em uma mão. Já a mão esquerda era usada para contar quantas mãos direitas tinham sido completadas na contagem. Cinco dedos da mão esquerda vezes doze falanges da mão direita, e temos o número sessenta, até hoje usado como base de contagem para medidas de arcos e ângulos, além de tempo!

 É claro que existem explicações mais pragmáticas, como o fato de o número sessenta ser divisível por um, dois, três, quatro, cinco e seis, o que facilitava os cálculos. Além disso, o ano solar tem doze ciclos lunares. Seja como for, essa antiga herança dos sumérios permanece até os nossos dias nas contagens comerciais, e sempre que comprarmos uma dúzia de qualquer coisa nos lembraremos deles.

A origem dos nomes das unidades de medir – etimologia

26 de julho de 2010

Clio – Musa da História

O Sistema Internacional de Unidades – SI incorpora unidades variadas que representam diversas grandezas físicas. O SI é relativamente recente, porém os nomes das unidades que o integram vêm de longe e têm as mais diversas origens. Conhecer a etimologia desses nomes todos facilita a compreensão e é, no mínimo, divertido. (more…)

A praça Vendôme: o palco da Revolução Métrica

20 de julho de 2010
 

   

Muitas pessoas sabem que a praça da Bastilha foi o palco a Revolução Francesa. Mas não é muito conhecida a relação existente entre a praça Vendôme – o imponente largo onde estão instalados os mais luxuosos joalheiros do mundo – e a luta popular. De fato, é nessa praça, onde existem algumas das mais ricas habitações de Paris, que estão os vestígios de uma revolução mais calma,  no entanto tão importante quanto a de 1789 : a Revolução do Sistema Métrico. (more…)

Medidas extremas

12 de julho de 2010

Conheça a fascinante história das medidas, que acompanham o homem desde o tempo das cavernas.

Texto da Revista Superinteressante, ed. 186, mar. de 2003 

Da Pré-História aos dias de hoje, as medidas de comprimento, volume e massa foram de tal forma incorporadas às nossas vidas que é impossível imaginar a civilização sem elas. Conheça os bastidores dessa história de erros, acertos e acirradas disputas de poder.

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A medida dos paladares

24 de junho de 2010

O Livro “Dona Benta – Comer bem” (Companhia Editora nacional) tem um capítulo sobre como imprecisão na quantidade dos ingredientes de uma receita interfere no resultado do prato.  O título do capítulo é ” Peso e Medida”, e fornece muitas “dicas” sobre fazer para medir corretamente os ingredientes. Veja algumas:

Sempre que determinada receita pede medidas como xícaras e colheres, a tendência é pesarmos e medirmos os ingredientes empregando utensílios caseiros, pela facilidade de estarem à mão. É preciso, no entanto, levar em conta que o tamanho das xícaras e das colheres varia bastante; conseqüentemente, não existe uma uniformidade. O correto é utilizar medidores padronizados, que são facilmente encontrados em lojas de artigos para culinária.

Meça os líquidos sempre ao nível dos olhos, usando uma jarra de vidro graduada.

Antes de medir farinha, peneire-a sobre um pedaço de papel alumínio ou impermeável, para que ela fique bem fina e leve. Nunca a coloque diretamente dentro das medidas. E quando a receita incluir pequenas quantidades de ingredientes em pó (sal, pimenta, canela etc.), peneire todos eles com a farinha de trigo, para que fiquem perfeitamente distribuídos.

Ao medir ingredientes secos em xícaras ou colheres, nunca os aperte, salvo se isso for solicitado na receita, ou no caso do açúcar mascavo, que deve ser compactado à medida. Coloque os ingredientes nas medidas despejando-os delicadamente. Retire o excesso com as costas da lâmina de uma faca, para que os ingredientes fiquem no nível correto.

Se a receita pede uma colher cheia (de sopa ou de chá), ponha duas rasas. E nunca use colheres de seu faqueiro, utilize sempre as colheres-medida.

Não meça condimentos sobre a tigela, pois eles podem derramar.

Lave e seque os medidores a cada vez que os usar.

Veja algumas equivalências abaixo:

  • 1 xícara (chá) rasa de açúcar equivale a 120g.
  • 1 xícara (chá) de manteiga ou margarina equivale a 200g.
  • ¼ de xícara (chá) de líquido equivale a 4 colheres (sopa).
  • 1/3 de xícara (chá) de líquido equivale a 6 colheres (sopa).
  • ½ xícara (chá) de líquido equivale a 10 colheres (sopa).
  • 2/3 de xícara (chá) de líquido equivale a 12 colheres (sopa).
  • ¾ de xícara (chá) de líquido equivale a 14 colheres (sopa).
  • 1 colher (sopa) equivale a 15ml.
  • 1 colher (chá) equivale a 5ml.
  • 1 colher (sopa) de líquido equivale a 3 colheres (chá).
  • 1 cálice equivale a 9 colheres (sopa) de líquido.
  • 1 pitada é o tanto que se pode segurar entre as pontas de dois dedos ou ½ colher (chá).

 

Fonte: Livro Dona Benta Comer Bem    (Editora Nacional)

Medidas do legado Árabe

10 de junho de 2010

A civilização árabe chegou na península Ibérica com os berberes, que a invadiram em 711 e lá permaneceram por mais de cinco séculos.  A influência cultural sobre os povos que lá viviam  foi considerável.  (more…)

Anedota com medida portuguesa

4 de junho de 2010

O alqueire designava, originalmente, uma das bolsas ou cestas que se punha sobre o animal de carga, pendente para ambos os lados do seu dorso. Já no século XV deu-se o nome de alqueire ao recipiente usado para medir o volume de mercadorias secas, geralmente grãos. O hábito de avaliar o tamanho das terras agricultáveis pelo volume de grãos que elas produziam fez com que o alqueire passasse a ser empregado como unidade de área em propriedades rurais, como o alqueire Paulistas, o Mineiro etc.

Atualmente usa-se o hectare, unidade de área admitida temporariamente pelo SI que equivale a 10.000 m², ou o metro quadrado e seus múltiplos. Mas… E a anedota? Confira:

Estavam dois agricultores, um Americano e um Alentejano a compararem o tamanho de suas propriedades:

 – Qual é o tamanho de suas terras? – Pergunta o Americano.
 – Para os padrões portugueses a minha terra tem um tamanho razoável, vinte alqueires, e a sua?
– Olha, eu saio de casa de manhã, ligo o meu jeep e ao meio-dia ainda não percorri a metade da minha propriedade. – Gabou-se o Americano.
 – Pois é, – responde o Alentejano – já tive um carro desses. Esses Jipes americanos só dão problema e não andam nada…

Antes da definição do sistema métrico…

20 de maio de 2010

A vara e o côvado, medidas medievais na porta de Sortelha

O sistema métrico, desenvolvido numa estrutura de múltiplos e submúltiplos decimais da unidade (quilograma, litro e metro), foi concebido por G. Morton em 1670, mas só 120 anos depois, à época da Revolução Francesa, é que foi aprovado pela Assembleia Constituinte Francesa.

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