Archive for the ‘Crônicas e anedotas’ Category

Ano novo, ou a fábula do panetone eterno…

11 de dezembro de 2013

panetone

– … Como assim, tempo cíclico… De que tempo você está falando?

– De todos, ora!

– Você está enganado. O tempo é contínuo, ele flui como um rio que nasce no passado e corre para o futuro, passando pelo presente…

– Muito poética essa imagem do rio, mas não acho que seja assim. Para mim o tempo é apenas uma maneira das pessoas medirem uma transformação, um processo!

– Medir um processo, é? Sei…

– Sim, uma mudança de estado, quando uma coisa vai se transformando em outra. As coisas parecem ter começo e fim apenas porque medimos alguma parte de um processo que, na verdade, é contínuo. Se as coisas fossem estáticas, imutáveis, o tempo não existiria.

– Que nada! A maioria das coisas começa e acaba! E pronto!

– Muito bem! Então me dê um exemplo de uma coisa que começa e acaba.

– Fácil. Um panetone!

– Um panetone? Porque um panetone?

– Sei lá, me deu vontade. É época de panetone!

– Então vejamos : O padeiro faz a massa, põe no forno e, depois de um tempo, o panetone fica pronto. Aí, alguém o compra e o come. O que aconteceu? O panetone acabou-se, mas o processo de fazê-lo se repete indefinidamente.

– É, mas teve começo e fim, não teve?

– Aquele panetone foi apenas um pequeno evento no infindável processo de produzir e comer panetones…  É como eu disse: Se você olha o processo “no meio” parece que aquela parte teve começo e fim. Porém, como vimos, os processos são circulares e, portanto, infinitos.

– Ai, ai, ai… Lá vem você com essa mania de infinitude.

– Vou dar outro exemplo. As estações do ano existem porque a Terra gira em torno do Sol, certo?

– Certo! E também porque o eixo da Terra é inclinado.

– Exatamente. Ano após ano as estações se repetem…

– Mas não é todo mundo que reconhece as estações como sendo primavera, verão, outono, inverno. Aqui no Brasil, por exemplo, só com muita imaginação a gente percebe quatro estações…

– Sim, mas conseguimos distinguir a estação fria e a quente. Ou então a estação chuvosa e a estação seca. A mudança de clima, de uma estação para outra, permitiu às antigas civilizações perceberem que o tempo muda, mas essa mudança acaba se repetindo a cada ano, ciclicamente. Ou seja, tanto o tempo climático quanto o tempo cronológico são cíclicos. Não é à toa que, em português, a palavra “tempo” faz referência às duas coisas.

– Ok! Concordo que a repetição das estações permite medir o tempo em anos. Aliás, basta observar que os dias, mais curtos no inverno, vão ficando mais longos no verão.  Mas e o tempo histórico? Passado é passado, não volta nunca mais…

– Será que não?  O que você me diz do Natal? Para os cristãos o Natal não é apenas o aniversário de Cristo.  Eles creem que Cristo nasce, novamente, a cada ano. Os antropólogos chamam a isso de “tempo mítico”.

– Sei não… Só sei que um dia o nosso amigo Sol vai deixar de ser a pacata estrela amarela que é hoje, vai  se tornar uma gigante vermelha e vai engolir o planeta. Aí, adeus tempo climático, tempo cíclico, tempo mítico… Adeus  eternidade! Como é que você responde a isso?

– Eu bem que poderia falar sobre o infinito processo que cria e destrói  universos, falar do “eterno retorno”…  Mas isso é apenas especulação filosófica.  Então, respondo com uma imagem poética inspirada em Vinicius de Morais: Assim como o amor, todo processo é infinito enquanto dura…

Hibernar e sobreviver…

21 de março de 2013

bearhibern

Nas regiões frias do planeta a hibernação é um recurso a que alguns animais endotérmicos recorrem para sobreviver.

Endotermia, para quem não se lembra, é a capacidade de manter a temperatura corporal relativamente constante. As aves e os mamíferos são endotérmicos, mas apenas alguns mamíferos e uma única ave conseguem hibernar.

O estado de letargia causado pela hibernação protege os animais do frio e da escassez de alimentos durante o rigor do inverno, pois  as suas funções vitais são reduzidas ao mínimo.

estivação é algo parecido, só que costuma ocorrer com animais que habitam regiões onde a estação quente e seca (o estio) provoca a escassez de água e de alimentos, além de altas temperaturas. Caracóis e até alguns peixes adotam a estratégia da estivação para sobreviver. Escondem-se em lugares úmidos e entram no estado letárgico até o fim da estiagem.

Para resumir: Hibernação ou estivação são estratégias a que alguns animais recorrem quando o rigor do clima ameaça a sua sobrevivência. Eles se recolhem e ficam inativos até o clima melhorar.

E onde entra a metrologia? Ora, a metrologia está, justamente, dentro desses animais, cujo relógio biológico parece ter sido calibrado em laboratório. De fato, o tempo nada mais é que a percepção (e o registro, no nosso caso) das durações e dos ciclos.  Experimentamos durações, ciclos e ritmos em nossos próprios corpos e, assim como os animais que hibernam, podemos nos sintonizar com os ritmos da natureza. É uma questão de sobrevivência!

Aliás, foi mais ou menos isso o que aconteceu com o Almanaque no ano de 2012. Hibernou para sobreviver… Agora, entretanto, o tempo bom retornou, e o Almanaque pode voltar à ativa. Então, mãos à obra!

Álcool para limpeza, isqueiro e bumerangue

25 de novembro de 2010

careta

Não estranhe. Tudo começou quando postamos aqui no Almanaque o texto sobre dragões, cadeiras e o padrão internacional do quilograma. Algumas pessoas acharam a idéia divertida, quer dizer, que alguém pretenda estabelecer nexo entre coisas aparentemente tão díspares. Daí nós recebemos alguns desafios. Este é o primeiro deles. Então, vamos lá!

Para começar, o álcool para limpeza tem um duplo vínculo com a regulamentação da metrologia e da qualidade. As embalagens onde o álcool é acondicionado precisam respeitar normas rígidas de fabricação. O regulamento técnico do Inmetro a respeito obriga os fabricantes a cumprirem essas normas e a submeter os seus produtos a uma série de ensaios, de modo que a embalagem seja segura.

Além disso, o teor de álcool informado na embalagem é expresso em graus INPM. Ora, ora, o que será isso?  Muito simples. O álcool para limpeza não é, evidentemente, puro. É uma mistura de etanol e água (além de um desnaturante, que serve para dar gosto ruim à mistura e ninguém se animar a fazer caipirinha com ela). Então, o grau INPM informa quanto de etanol a mistura contém. Vamos a um exemplo: Normalmente, o teor das bebidas alcoólicas é dado em graus GL, ou Gay Lussac, e representa o percentual de álcool em relação ao volume da bebida. Assim, um litro de uísque com 40°GL tem 40% de etanol, ou seja, 400ml. Já o grau INPM dá esse percentual em massa (peso). A sigla INPM significa Instituto Nacional de Pesos e Medidas, o antigo nome do Inmetro. Um quilograma de álcool para limpeza com 40 graus INPM terá 400 gramas de etanol. Mas, você perguntará, não é a mesma coisa? Na verdade, não é não! Um litro de água a 20°C pesa aproximadamente um quilograma, mas um litro de etanol a 20°C pesa pouco menos de 800 gramas. Bem mais leve, não é? Tudo isso sem falar que, obviamente, a quantidade de álcool contido na embalagem é controlada pela metrologia legal!

Muito bem, mas e o isqueiro? Essa é fácil! Os isqueiros são regulamentados e só podem ser comercializados com a marca holográfica do Inmetro, que garante a qualidade e a segurança do produto.

E com isso chegamos ao bumerangue. Caso seja um bumerangue de brinquedo, tudo bem, deve trazer o símbolo de conformidade do Inmetro, como todo brinquedo. Mas, e se não for? Pois bem, o bumerangue de verdade é uma arma rústica inventada pelos aborígines australianos, algo bastante perigoso em mãos inexperientes. Se você não souber como lançá-lo ele acaba voltando e batendo na sua cabeça!

Na verdade, garrafas de álcool para limpeza e isqueiros são como bumerangues: É preciso tomar muito cuidado com o seu manuseio, caso contrário essas coisas se voltarão, literalmente, contra você.

Hoje é o dia da Filosofia! Quem diria!

18 de novembro de 2010

Dizem que foram os gregos os inventores da filosofia. Sem dúvida foram eles quem inventaram a palavra, que significa “amizade pelo saber”. Os filósofos são, portanto, os amigos do conhecimento. Entretanto, na antiga Grécia, houve época em que conviveram dois grupos relativamente distintos de pensadores.

(more…)

Dragões, cadeiras e o Protótipo Internacional do Quilograma

18 de novembro de 2010

Dragões, todo mundo sabe, são criaturas lendárias. Isso significa que, provavelmente, ninguém jamais viu um ao vivo. No entanto, quando perguntadas, as pessoas acabam descrevendo o bicho bastante bem. Como explicar que quase todo mundo saiba o que é um dragão? (more…)

A grandeza da inteligência

24 de setembro de 2010

intelec

Medir é quase uma compulsão para os cientistas. A possibilidade de isolar as grandezas de um fenômeno físico para então quantifica-las é um dos pilares do método científico. Trocando em miúdos, a comprovação de uma teoria científica se faz, normalmente, por experimentos que envolvem medições. O Sistema Internacional de Unidades – SI estabelece toda uma gama de grandezas físicas passíveis de serem medidas e que dão conta dos fenômenos estudados pela ciência. Em sendo assim, ficamos um tanto surpresos quando uma estudante nos propôs que imaginássemos um instrumento de medir ainda não inventado, para quantificar uma grandeza física ainda não descoberta pela ciência. (more…)

O Tamanho das coisas…

20 de setembro de 2010

Tamanho, todos dizem, não é documento. Essa frase pretende demonstrar que, afinal de contas, a qualidade não depende da quantidade, ou seja, as características que consideramos mais importantes em qualquer coisa não são determinadas pelo tamanho dessa coisa. Isso talvez seja verdade quando nos referimos ao comportamento das pessoas. No universo da física, entretanto, não apenas o tamanho faz diferença, como as quantidades das demais grandezas físicas costumam alterar qualitativamente os fenômenos. Isso pode parecer complicado porque o nosso senso comum considera que as coisas são o que são independentemente da escala. Essa idéia é reforçada pelos filmes de ficção que às vezes vemos na TV, como aqueles onde as pessoas são encolhidas até ficarem do tamanho de formigas. (more…)

Cérebro Metrológico…

8 de setembro de 2010

Todo dia medimos alguma coisa! Quando pensamos em medir, imediatamente nos lembramos dos instrumentos de medição e das medidas materializadas, aqueles objetos criados justamente para que possamos comparar aquilo que pretendemos medir com uma medida padrão. Uma régua escolar, por exemplo, materializa um comprimento padrão de 30 cm e, com ela, é possível medir uma porção de coisas com alguma precisão.

No dia a dia, entretanto, fazemos centenas de medições, mesmo sem utilizarmos qualquer recurso. Ao atravessarmos uma rua avaliamos automaticamente a distância que teremos que percorrer, a velocidade dos carros, o tempo que o semáforo ficará aberto etc. O nosso cérebro é perito nisso, e faz as estimativas e os cálculos necessários para que saibamos, de antemão, como deveremos agir. É por isso que não saímos do décimo andar de um prédio pulando pela janela! O nosso cérebro nos diz, após avaliar a distância até o chão, que não somos capazes de vencer uma altura dessas impunemente. Ninguém tentará, por exemplo, levantar um carro apenas com as mãos para trocar um pneu. Sabemos que o peso do carro é muito superior às nossas forças.  Na verdade, o simples ato de pegar alguma coisa, um livro, por exemplo, é um processo complexo de avaliação de distância, de peso, de volume.

O nosso cérebro é, talvez, o mais elaborado instrumento de medir de que dispomos, mesmo que os resultados obtidos por ele não sejam cientificamente precisos. Afinal, para medidas precisas, nós dispomos da ciência metrológica.

O Espaço, a fronteira final…

6 de setembro de 2010

Nunca se falou tanto em colonização de outros planetas como nos dias de hoje. A crescente percepção de que estamos, de fato, destruindo a biosfera do nosso próprio mundo acaba conduzindo leigos e cientistas a especular sobre essa possibilidade.

Independentemente do que se possa dizer das viagens espaciais, o fato é que iremos enfrentar um enorme problema, e esse problema é metrológico! Sim, isso mesmo! As distâncias são tão grandes que sequer conseguimos avaliá-las, e o nosso referencial para distâncias, o quilômetro, deixa de ser aplicável quando medimos distâncias entre os corpos celestes. Para medir as distâncias no espaço usa-se a Unidade Astronômica, o Ano-Luz e o Parsec. Uma Unidade Astronômica equivale a 149.598.550 km, quase cento e cinqüenta milhões de quilômetros. O ano-luz tem cerca de 9.460.500.000.000 km e o Parsec vale incríveis 30.856.770.000.000 km. Mesmo no nosso quintal cósmico, o sistema solar, as distâncias são imensas. Pensar em outras estrelas que não o Sol, então, é desanimador.

As estrelas mais próximas da Terra pertencem à constelação do Centauro. A que fica mais pertinho chama-se Próxima Centauri e é uma anã vermelha. Fica a cerca de 4,2 anos-luz daqui. As outras duas estrelas, Alfa Centauri e Beta Centauri ficam a 4,4 anos-luz. Não temos, nem de longe, tecnologia para vencer distâncias como essas, e certamente não teremos tempo para desenvolvê-la se continuarmos a destruir o ambiente em que vivemos.

A colonização de outras terras sempre foi a saída mais fácil encontrada pelos nossos antepassados quando esgotavam os recursos do lugar onde viviam. O último grande surto colonizador colocou os europeus nas Américas, na Oceania e na África, e não se pode dizer que os povos que lá viviam ficaram muito contentes com isso. Agora, entretanto, essa fórmula predatória precisa ser revista. É infinitamente mais complicado ocupar Marte, por exemplo, do que adotar uma atitude respeitosa para com o nosso planeta.

Por isso, em vez de apostarmos na colonização de outros mundos, o melhor mesmo é cuidar deste aqui.

Conexões circulares

29 de julho de 2010

Imagem térmica do corpo humano

Temperatura é uma grandeza física das mais intuitivas! Nascemos com a capacidade de perceber as variações de temperatura e distinguir o frio do calor. Porém, como também precisamos medir essa grandeza de modo objetivo, os cientistas acabaram por desenvolver métodos e instrumentos para medi-la. O instrumento mais conhecido é o termômetro de mercúrio. (more…)